Keissy Juliene, é uma jovem indígena da etnia Wapichana, natural da comunidade Tabalascada. Atualmente, ela reside na comunidade Canauanim, localizada a cerca de 25 km da capital de Roraima, Boa Vista. Todos os dias, Keissy enfrenta uma difícil jornada para chegar até a Universidade Federal de Roraima, onde cursa Jornalismo. Ela percorre uma estrada sem asfalto, que em dias chuvosos fica difícil de trafegar, mas o esforço é para garantir sua presença nas aulas.
"Eu saio de casa bem cedo, porque o caminho é complicado, principalmente quando a estrada está ruim. Quando chove, é ainda mais complicado. Mas a vontade de estudar e conquistar meu diploma é maior que as dificuldades'', contou Keissy.
Roraima é o quarto estado com maior proporção de indígenas residindo em áreas rurais no Brasil. Ao todo, são 97.668 indígenas, com 71.754 vivendo em terras indígenas e 25.914 fora delas.
Desafios no Acesso ao Ensino Superior
Historicamente, os povos originários enfrentaram enormes barreiras estruturais e sociais no acesso ao ensino superior. O distanciamento das instituições, a falta de uma educação escolar que respeitasse suas línguas e culturas, além de desafios socioeconômicos, dificultaram a inclusão desses jovens nas universidades. O Coordenador do curso de Gestão Territorial Indígena da UFRR(Universidade Federal de Roraima), Daniel Bampi, falou à respeito das dificuldades que alguns alunos indígenas enfrentam para chegar até à universidade.
"Muitos alunos indígenas enfrentam dificuldades para se deslocar até as universidades, alguns deles moram em áres que o acesso é apenas por avião e uma viagem custa em torno de 20 mil reais, sem contar as pessoas que precisam se deslocar por barcos ou estradas, que vem de locais de difícil acesso. Só para fazer o vestibular na capital, o custo saia muito alto'', contou o Bampi.
O Papel do Instituto Insikiran
O Instituto Insikiran, localizado no estado de Roraima, foi criado para atender às demandas educacionais da população indígena. A instituição oferece cursos de graduação e pós-graduação com foco especial na formação de lideranças indígenas e no fortalecimento da cultura e identidade dos povos indígenas. Por meio dessa instituição, houve uma reformulação no vestibular, tornando o processo seletivo mais acessível para os indígenas. O resultado foi um aumento significativo no número de inscrições, como explica o professor.
"A reformulação do vestibular indígena foi fundamental para atrair mais candidatos. Antes, o processo seletivo não considerava as adversidades logísticas e hoje o processo de inscrição para o vestibular é feito de forma online, desde a inscrição até o envio de documentos para a matrícula, em caso de aprovação. Com essa mudança, desde o ano passado, todas as vagas para cursos do Insikiran, tem sido preenchida e a concorrência se tornou maior. Hoje são 3 candidatos concorrendo para 1 vaga'', disse o docente.
A Importância do Apoio Comunitário
Keissy está no 5º período do curso de Comunicação Social e ressaltou o apoio essencial de sua comunidade para conseguir concluir sua graduação. Ela destacou, especialmente, o incentivo do tuxaua, que tem sido uma fonte constante de motivação e suporte em sua jornada acadêmica.
"O tuxaua e a minha comunidade sempre me apoiaram. Eles me incentivam a continuar, me lembram da importância da educação para nós, povos indígenas. Esse apoio tem sido fundamental para que eu não desista", relatou.
Maciel de Souza e a Educação como Ferramenta de Transformação
Maciel de Souza, indígena da etnia Macuxi e natural da comunidade Maturuca, também está cursando o ensino superior. Ele acredita que sua formação será crucial para contribuir com sua comunidade, principalmente no que diz respeito à elaboração e fortalecimento de políticas públicas voltadas aos povos indígenas.
"A educação é a chave para que possamos ter voz nas decisões políticas e sociais que nos afetam diretamente. Com minha formação, espero poder contribuir com minha comunidade e lutar por políticas públicas que respeitem nossos direitos e cultura", reforçou Maciel.
O Caminho Para um Futuro Inclusivo
O aumento de estudantes indígenas no ensino superior em Roraima representa uma vitória importante, mas também revela a contínua luta por igualdade e reconhecimento. Keissy, Maciel e outros jovens de suas comunidades buscam na educação uma ferramenta de transformação, para defender suas culturas e direitos. Apesar das dificuldades, o apoio das comunidades, universidades e da sociedade é essencial para que esses estudantes conquistem um futuro mais inclusivo e representativo. A educação indígena é, assim, uma chave para um Brasil mais igualitário e diverso.
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