CIR e nova coordenação da COICA iniciam diálogo sobre a situação do povo Warao em Roraima

O Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), organização indígena que atuam em nove países, Perú, Guyana, Bolívia, Equador, Guiana Francesa, Suriname, Colômbia, Venezuela e Brasil, iniciaram um diálogo para tratar sobre a preocupante situação do povo Warão em Roraima.

O diálogo iniciou em um breve encontro, entre as duas organizações indígenas, com a presença de representantes das entidades sociais, Pastoral Indigenista, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e um grupo de lideranças do povo Warao. O encontro foi realizado na manhã desta segunda-feira, 25, na sede do CIR, em Boa Vista/RR.

A aproximação se dá pela eleição do novo coordenador da COICA, José Grigório Mirabal, do povo indígena Curripaco, da Venezuela, eleito na X Assembleia Geral da organização, realizada nos últimos dias 21 e 22 de junho, em Macapá. Na mesma semana, 18 a 20, ocorreram mais dois importantes eventos, o II Congresso de Mulheres Indígenas Amazônicas e a IV Cúpula Amazônica.

Em sua primeira agenda oficial como coordenador geral da COICA, Gregório Mirabal, vindo de Macapá acompanhado de uma delegação de 11 indígenas, permanece em Roraima por dois dias, para iniciar diálogo com o CIR e entidades sociais que atuam com a preocupante situação do povo indígena Warao em Roraima.

No encontro, o coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Enock Barroso Tenente, em uma breve recordação sobre a questão histórica dos povos indígenas em Roraima, pontuou que um dos principais desafios encarados até hoje, é o preconceito e a discriminação contra os povos indígenas locais. O mesmo e até pior que acontece hoje com o povo Warao, que busca abrigo em um Estado e país anti-indígena, como o Brasil.

Por outro lado, destacou a criação das organizações indígenas em Roraima, entre as quais o CIR, que atua na defesa dos direitos indígenas, principalmente, direitos territoriais. E como resultado dessa forte atuação, Enock destacou a conquista da educação escolar indígena, saúde indígena e como uma das principais, as 32 terras indígenas demarcadas e homologadas.

Enock expressou tristeza ao ver, segundo ele, indígenas Warao, mulheres e crianças nos semáforos de Boa Vista, sofrendo todo tipo de preconceito, humilhação e não poder fazer muito em prol da questão. Porém, apesar do CIR já ter tido contato com lideranças indígenas Warao, o diálogo iniciado, é considerado o primeiro para uma longa caminhada de ajuda e ações concretas, com o apoio da COICA e das entidades, instituições, que já vem dando atenção aos Warao.

A advogada indígena, Joênia Wapichana, também participou da reunião e reafirmou a garantia dos direitos indígenas do povo Warao, direitos que, independe, de serem de outro país ou não, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Citou o Ministério Público Federal (MPF), como órgão do Estado brasileiro que pode e deve acolher as questões de violações dos diretos indígenas do povo Warao, sobretudo questões de preconceito e discriminação.   

Como posicionamento sobre o assunto, o coordenador do CIR defendeu que haja o diálogo direto com os indígenas Warao, para saber o que de fato querem, precisam e como a organização pode ajudá-los.

Enock adiantou que o CIR cumprirá agenda nos abrigos, em Boa Vista e no município de Pacaraima, assim como incluir o povo Warao nos espaços de debates da organização, como reuniões, assembleias, eventos e outros necessários para que conheçam o movimento indígena de Roraima e assim, fortalecê-los politicamente.

O contato com o povo Warao já vem desde 2016, quando o CIR recebeu em sua Assembleia, um grupo de lideranças Warao que relataram a difícil crise no país venezuelano, crise política, social e econômica, que tem afetado os povos indígenas da Venezuela em seus territórios tradicionais. Não é de hoje, que o povo indígena da Venezuela e outros países da bacia Amazônica, sofrem com o avanço dos projetos de grande impacto, como mineração, rodovias e petroleiras.

Recentemente, na 5ª Assembleia Estadual da Juventude Indígena de Roraima, 24 a 27 de maio, a organização recebeu jovens indígenas do povo Warao, que chegaram ao estado também no fluxo do povo Warao e outros como E`nepa, que também estão em Roraima.  

Conforme dados das entidades sociais que tem acompanhado a situação mais de perto, existe por volta de 500 Warao no abrigo do município de Pacaraima, fronteira com a Venezuela, e 700 no abrigo de Boa Vista, além de 80 do povo E`nepa. Os números variam pelo fluxo de entrada e saída dos abrigos, quando muito já seguiram para outros estados, como Manaus, Pará e outros.

Coordenador da COICA pede sensibilidade à causa do povo Warao em sua primeira entrevista ao programa radiofônico A Voz dos Povos Indígenas

Após o encontro, Gregório Mirabal, concedeu a sua primeira entrevista ao Programa A Voz dos Povos Indígenas, na emissora de Rádio Monte Roraima, apresentado pela jornalista indígena, Mayra Wapichana, do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

Mirabal, eleito para um mandato de quatro anos, compõe uma coordenação de seis membros, o Vice-coordenador, Tuntiak Katan(Equador), Coordenador do Território, Elcio Manchineri(Brasil), Relações Internacionais, Adolfo Chaves(), Direitos Humanos, Michel Garren(Guiana) e Educação Ciência e Tecnologia, Abea Cacique(Perú), destacou em sua entrevista, os desafios de coordenar uma organização tão ampla como a COICA, os resultados do II Congresso das Mulheres Indígenas Amazônicas e da IV Cúpula Amazônica, o resultado da X Assembleia, considerada como difícil pela concorrência de cinco candidatos, incluído a Venezuela que é um país de população pequena, mas de luta grande.

Gregório agradeceu o amadurecimento político dos povos indígenas por terem dado a oportunidade de, pela primeira vez, a Venezuela ocupar o espaço e coordenar a COICA. Um espaço que, segundo ele, não é para ele, e sim, para a Venezuela e os nove países da bacia amazônica.

Destacou como grande decisão das mulheres dos nove países amazônicos, a formação do Conselho de Mulheres Indígenas da COICA, um espaço de conquista das mulheres indígenas amazônicas que, pela primeira vez, fazem parte da estrutura da organização. Outra observação foi a paridade da delegação, cinco homes e cinco mulheres, um ato que se cumpre pela primeira pela COICA.

Sobre a pauta da Cúpula Amazônica destacou três aspectos fundamentais, o extrativismo que está acabando com a floresta Amazônica, por meio de empresas transnacionais, petroleiras, mineradoras e outras grandes empresas. “Qual é a nossa alternativa para salvar a nossa Amazônia, salvar nossos povos e defender nossos territórios”, questionou o coordenador, alertando para as mudanças climáticas.

“Se seguimos destruindo nossas florestas, nossos territórios, a crise climática vai acelerar e se não se toma medidas, proteger e titular territórios, a crise climática será mais forte”, alertou Gregório, reforçando a reivindicação dos povos indígenas pela titulação de mais de 100 milhões de hectares em toda bacia amazônica e que não tem nenhum reconhecimento jurídico dos Estados. “Pedimos aos governantes dos nove países que haja um trabalho mais comprometido com a titulação dos territórios indígenas”, reforçou Meribal.

A incorporação das propostas da juventude indígena nos espaços de discussões da COICA, também é vista pelo coordenador como um grande avanço, pela razão de que, os jovens vão continuar a luta dos povos indígenas.

O coordenador esclareceu que pela oportunidade de poder conhecer um pouco mais sobre a situação do povo Warao em Roraima, viram que não é da mesma forma como recebem as notícias, pois é necessários falar com os próprios. Comprometeu-se de acompanhar a situação e pediu à sociedade roraimense colaboração, respeito e sensibilidade à causa do povo Warao.

“Pedimos ao povo de Roraima, Boa Vista e a todos que estão nos ouvindo, colaboração com os nossos irmãos indígenas, de que entendam a sua situação, porque todos somos seres humanos. Qualquer um de nós pode passar por essa situação, por isso pedimos sensibilidade, com as mulheres, crianças, anciãs e que cada família do Brasil se ponha no lugar deles, povo Warão, antes de discriminá-los, maltratá-los”, pediu Gregório, com humidade e carinho, não só aos povos da Venezuela, mas de todos os países.

Em relação aos passos da nova coordenação, Maribal reafirmou o compromisso com os nove países, já feito na posse da atual coordenação. Entre os consensos, Gregório citou como importante avançar nas discussões, o amplo debate da igreja católica sobre o chamado do Papa Francisco de salvar a Amazônia, salvar os povos indígenas, um assunto que será tratado com a equipe da Rede Eclesial Pan- Amazônica (REPA/Local), em Boa Vista, nesta terça-feira.

“Esperamos que esse chamado do Papa seja de verdade, gere intercâmbio entre os povos indígenas da Amazônia e gere impactos para proteger nossos povos e territórios”, refletiu Maribal.

Citou quatro compromissos com os povos da bacia amazônica, seguir lutando pela união dos povos, que são 450 povos distintos nos nove países, diferentes línguas, cosmovisões, dar maior participação das mulheres nas tomadas de decisões e suas lutas coletivas, incorporar a juventude nessa luta porque são o presente e o futuro, e a transparência nas decisões e recursos financeiros, praticando a consulta prévia, livre e informada, além do plano de ação que deverão cumprir ao longo dos quatro anos.

Quanto ao encontro realizado na sede do CIR, Gregório também reafirmou o compromisso de acompanhar o assunto em conjunto com a organização, para estudar o caso, buscar melhores soluções, propostas e ouvi-los. “Uma coisa estamos claros, o povo Warao não pensa ficar em sua vida toda buscando refúgios, porque são povos que tem seus territórios tradicionais”, esclareceu o coordenador, informando que irão buscar entendimento com as autoridades do Brasil, Venezuela, levando em consideração o que querem o povo Warao.

Maribal entende que o povo Warao não pode viver sempre em refúgio, assim como também tem direito ao seu território tradicional. O coordenador agradeceu ao Estado pelo acolhimento do povo Warao, mas também pediu que o Governo respeite seus  direitos, que lhes ajudem a sair em curto prazo, dê oportunidade para que vivam como povos indígenas, pediu Gregório, reafirmando o compromisso de acompanhar a situação, para que tenham informações completas e poder emitir alguma recomendação ao Governo e demais autoridades.

“Queremos ajudar, sentar com o Governo e buscar soluções para todos os nossos irmãos”, esclareceu Gregório.

Deixou saudações aos povos indígenas de Roraima e pediu que busquem a união como irmãos, porque não há  diferença fronteiriça, nacionalidade, e sim, irmãos, unidos como irmão. “Que busquemos as semelhanças e não as diferenças, solucionar, conviver como irmãos”, concluiu Gregório dizendo que não é fácil ser venezuelano e de que qualquer país pode passa pela mesma situação.

A delegação indígena Venezuela cumprirá agenda, pela manhã, em uma reunião com a equipe da Rede Eclesial Pana-Amazônia (REPAM/Local), e a tarde, no Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena (Insikiran/UFRR), onde participam do Intercâmbio em Gestão Territorial Indígena – TI Koatinemo e TI Araweté Igarapé Ipixuna. O intercambio receberá a coordenação geral e do departamento de Gestão Territorial e Ambiental do CIR.

A COICA, no Brasil, tem como representante a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), e em Roraima, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), base da COIAB.   

Última modificação em 27/06/2018

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